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novembro 18, 2005
COISAS DA VIDA - Um periquito pela janela
Estava uma tarde de sol e o ar, por não se sentir, parecia quieto. Em Outubro costuma haver dias assim, pensava eu, depois de abrir a janela virada a poente, para pôr alguma roupa no estendal. Estava já curvado sobre a
máquina de lavar quando, de súbito, um ruído vindo do exterior me sobressaltou. Pareceu-me um bater de asas, porém não pude confirmar. Vim à janela, olhei em volta. Não havia pássaros por ali. Enquanto voltava a concentrar a atenção na máquina de lavar veio-me à lembrança o dia de verão em que, estando uma janela aberta, entrou em casa de meus tios um pombo. O animal, num primeiro momento assustado, em pouco tempo acabou por se tranquilizar, até porque minha tia, sem grande alvoroço, de um pedaço de pão fez migalhas, que depois deixou no sobrado da sala. O pombo, aos poucos, foi debicando. Agradou-lhe tanto que, a partir dali, todos os dias, sensivelmente à mesma hora, entrava pela janela em busca do lanche. Pusemos-lhe o nome de “Migalhas”. Então, quando estava perto a hora da visitação, era normal algum de nós perguntar – O Migalhas já chegou? Caso não estivesse ainda preparada a refeição, logo se metia mãos à tarefa. Assim aconteceu durante muito tempo, até que houve um dia em que o Migalhas não apareceu. Esperámos que viesse nos dias seguintes, mas tal não aconteceu. Soubemos depois, na mercearia do Senhor Jacinto, que um tal Mafarrico, negro e luzidio felino que era o terror dos pardais dos telhados da zona, aparecera lambendo-se e com todo o desplante, depositara junto aos pés da Dona Arminda o que, segundo ela, seria “um lindo pombo”. Para nós não havia dúvidas – pela descrição da Dona Arminda, o pombo que o seu Mafarrico havia abocanhado era exactamente o nosso amigo Migalhas.
Estava eu entretido com estas memórias quando, de novo, o ruído do bater de asas chegou até mim, porém agora, mais nítido, parecia vir de dentro de casa e não da rua. Quis certificar-me, dei alguns passos e foi quando vi que um lindo pássaro estava em cima da mesa da sala, muito à vontade, como se ali tivesse andado sempre. Incrédulo, porém com o máximo cuidado, fui-me aproximando. “É um periquito”, disse para mim, quando pude vê-lo melhor. O pássaro não se mexia. Com os olhos muito brilhantes e fixados em mim, antes parecia aguardar que eu tomasse qualquer iniciativa mais clara. E foi nesse entretanto que uma coisa extraordinária aconteceu – o periquito começou a falar.
- Não me faças mal, não me faças mal! – começou por dizer, enquanto recuava um pouco, as garras enrolando-se no rendilhado do pano sobre a mesa. De momento fiquei sem saber o que fazer. Fez-se um pequeno silêncio. O periquito estava quieto, os olhos, agora em movimento, denotavam algum nervosismo. Então, antes que decidisse abalar, atalhei:
- Espera! Espera! Eu vou falar! – Estava a tentar prosseguir quando ele interrompeu, em ar de desafio:
- Falar? Sobre a gripe? Sobre a gripe? – E começou como que a gracejar. Fiquei inquieto. Primeiro porque estava a falar com um animal. É sabido que os papagaios podem falar, no mínimo repetindo algumas palavras que os humanos lhes ensinam. Mas um periquito… nunca tal tinha visto?!.. Porém, por aquilo que já dissera, este periquito até estava a ir além dos papagaios – ele estava mesmo a conversar, de tal modo que eu estava a responder-lhe como se se tratasse de uma comunicação entre humanos. E fiquei também inquieto por ele me perguntar se eu queria falar “sobre a gripe”, o que de imediato me levou a relacionar isso com a gripe das aves. Aceitei o desafio:
- Sim, sobre a gripe que vocês, aves, estão a provocar…
- Que nós estamos a provocar. Nós?! Ah! Ah! Ah! Deixa-me rir!...
- Então, se não são vocês quem é? Se lhe chamam “gripe das aves” (e acentuei bem, martelei as palavras) é porque são vocês os responsáveis, não achas?
O periquito, caminhando muito devagar sobre a mesa, de um lado para o outro, parecia um causídico emproado no momento de colocar o réu entre a espada e a parede. Ergueu o bico, plantou no olhar um misto de solenidade e ironia e perguntou:
- Quando foi das vacas loucas, será que enlouqueceram porque elas mesmas o quiseram… foi?! - E deixou a interrogação no ar, fria como uma lâmina a pairar por sobre o silêncio que se instalou. E continuou:
- São vocês, humanos, que fazem as asneiras e depois… todos pagam. São vocês que mandam nisto, no mundo, não é, diz lá?!...
Eu estava calado. Calado e deveras surpreendido, ainda mais porque aquele periquito parecia ter alma de gente, de humano, e não era alma de um humano qualquer, pois sabia pensar e expressar-se como um ser evoluído.
- Sim… pronto… Tens razão. Mas diz-me, porque é que estás aqui… de onde é que vieste?
O periquito pareceu despir aquele ar acusador e tomar uma atitude de maior proximidade. Porém, como se fosse meio entre dentes, se os tivesse, respondeu:
- Queres mesmo saber… queres?! Ficou à espera. Depois adiantou, com voz mais grave, num tom de apoucamento da minha pessoa:
- Já vi… também estás com medo… borrado… é o que é! – e ficou-me fitando.
- Sim… claro… quer dizer, é bom saber de onde vieste, não é? Lá no lugar onde vivias também não deveria ser normal alguém entrar na tua casa sem tu saberes de quem se tratava… quem era…
Estava eu a acabar de apresentar as minhas razões, ao mesmo tempo tomando consciência de que “oh que confusão, estou a falar com o estupor do periquito como se ele fosse uma pessoa”, quando ele interrompeu, com voz grave:
- Puseram-me na rua! Eles puseram-me na rua, ouviste bem?
- Mas quem… quem são eles?...
- Sem dó nem piedade agarraram em mim e, logo pela manhã, mandaram-me janela fora, aqueles cobardolas dos meus donos. Foi o que eu ganhei, depois do tormento de milhares de quilómetros, numa gaiola superlotada e imunda, desde a terra onde saí do ovo.
- Milhares de quilómetros? – balbuciei, a imaginar o periquito, horas a fio no meio de centenas de outros como ele, após ter sido violentamente subtraído ao seu habitat natural .
- Desde a Costa Rica… a Costa Rica… ouviste bem?
- Calculo… deve ter sido triste, para os teus pais…
- Fazem o mesmo a todos… venham da América do Sul, de África, sei lá… Foi o que me fizeram, depois de ter dado cor e melodia àquela casa, depois de tanto alegrar as manhãs, depois de servir para retardar a noite. Foi assim: lançaram-me no ar, fecharam a janela e depois puxaram logo as cortinas, os ingratos. Com medo de uma gripe que não é das aves. Por causa de uma gripe, de que os próprios humanos, sim, são os responsáveis.
- Não há direito…
- Desfizeram-se de mim. Como afinal vocês, humanos, costumam fazer aos cães, quando chega o tempo das férias ou quando eles já são velhinhos… julgas que eu não sei? Como têm feito com as vacas loucas. Foram vocês que as enlouqueceram com aquela mixórdia das rações impróprias… Como fazem com os rios… tudo lá vai parar, desde a porcaria dos porcos – mas que culpa têm os porcos?! – até aos frigoríficos, plásticos, pneus e sei lá mais o quê?!...
-Sim, sim… é verdade – e seguiu-se outro momento de grande silêncio entre nós. Estranhamente, não se ouviam ruídos vindos da escada nem da rua. Era bem visível que estávamos os dois cansados. O periquito, muito quieto, as pernas abertas sobre a mesa, aguardava que eu dissesse qualquer coisa. Mas não me vinha nada à cabeça. Até que, pondo fim àquele silêncio tão incomodativo, disse:
- Sabes... somos humanos mas ainda temos muito a aprender, temos muito que mudar em nós. Temos a nossa cabeça… mas a razão, pelo menos em muitos de nós, não mora lá.
- Ainda vão acabar por destruir tudo… tudo… até ao último… de todos vós… até ao último de…
Ainda se lhe soltaram uns sons, mas eram ininteligíveis. Nunca chegarei a saber que mais me queria dizer. Ter-se-lhe-á turvado a vista, o coração terá começado a fraquejar, pois um nadinha mais e já tombava devagarinho sobre a mesa, sabe-se lá se por acaso com o olhar voltado para a janela, a asa direita um pouco levantada e com as penas dispostas em leque, como se num adeus, para sempre.
Da autoria do meu amigo Manuel João
Publicado por rajodoas às novembro 18, 2005 11:11 PM
Comentários
Muito bem escrito e com um conteúdo moral próprio de uma fábula. Um dia dia destes conto a história do meu piriquito- o Xiquinho- que, de facto, aprendeu a dizer o seu nome e mais uma duas palavras, que nestes bichinhos é muito raro.
Publicado por: hammer às novembro 19, 2005 11:41 PM