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setembro 02, 2005

Caos em Nova Orleans foi previsto por especialistas

Praticamente tudo o que aconteceu em Nova Orleans desde a passagem do furacão Katrina já havia sido previsto por especialistas e por simulações feitas por computador, o que torna surpreendente o despreparo das autoridades para a tragédia.

"O cenário de um grande furacão atingindo Nova Orleans já havia sido antecipado e previsto", disse Clare Rubin, consultora de gestão de emergências e professora do Instituto para Gestão de Risco, Crises e Desastres da Universidade George Washington.

Modelos de computador desenvolvidos pela Universidade Estadual da Louisiana e por outras instituições fizeram projeções detalhadas sobre o que aconteceria se a água ultrapassasse as barragens que protegem a cidade.

Em julho de 2004, mais de 40 organizações federais, estaduais, locais e voluntárias fizeram um exercício de simulação desse cenário, apelidado de "furacão Pam", em que tinham de lidar com uma tempestade imaginária que teria destruído mais de meio milhão de edificações em Nova Orleans e obrigado a retirada de 1 milhão de moradores.

Ao final do exercício, Ron Castleman, diretor regional da Agência Federal de Gestão de Emergências, declarou: "Fizemos grandes progressos em nossos esforços de preparação esta semana. As equipes desenvolveram planos de ação em áreas essenciais como resgate, atendimento médico, abrigos, restauração de escolas e retirada de entulho".

"É inexplicável o quão despreparados para a enchente eles estavam", disse o especialista em desastres Bill Waugh, da Universidade Estadual da Geórgia. Ele responsabilizou a redução de investimentos na preparação para emergências.

Na quinta-feira, o presidente George W. Bush afirmou: "Não acho que ninguém tenha previsto o rompimento das barragens".

Mas o engenheiro Joseph Suhayda, da Universidade Estadual da Louisiana, e outros especialistas já haviam alertado que as defesas poderiam falhar. Em 2002, o jornal New Orleans Times Picayune publicou uma série de cinco reportagens sobre o "The Big One" (nome que costuma ser dado ao grande terremoto que deve atingir a Califórnia no futuro), analisando o que aconteceria se as barragens se rompessem.

A reportagem previa que pelo menos 200 mil pessoas não conseguiriam ou não aceitariam desocupar a cidade, e que milhares morreriam. Também previa a colocação de pessoas no estádio Superdome, a dificuldade de acesso para as equipes de resgate por causa das estradas bloqueadas e várias outras consequências que se concretizaram após a passagem do Katrina.

Para Craig Marks, que dirige a Blue Horizons Consulting, uma empresa especializada na área de emergências, as autoridades realizaram a desocupação de maneira errada, deixando de ajudar aqueles que não tinham meios de transporte para sair da cidade.

"Eles podiam ter colocado as pessoas em trens e ônibus antes da chegada do furacão. Havia tempo e recursos federais suficientes. E agora descobrimos que não temos uma infra-estrutura de comunicações para que as equipes de resgate possam falar umas com as outras", disse ele.

A maioria dos que ficaram ilhados na cidade de cerca de 500.000 habitantes é de pobres, que não teve como partir. Ernest Sternberg, professor de planejamento urbano da Universidade de Buffalo, disse que as agências de policiamento têm mais interesse em investir em "brinquedinhos" tecnológicos que em comunicações básicas.

"Todo mundo sabe que as comunicações falham nos desastres, e mesmo assim as autoridades não investem nelas. Muito do dinheiro gasto com a segurança doméstica está sendo mal gasto", afirmou.

Vários especialistas criticaram também a colocação da agência de emergências sob o comando do Departamento de Segurança Interna, criado depois dos ataques de 11 de setembro de 2001. Para Rubin, a agência funcionava bem nos anos 1990, quando era pequena e independente.

O ex-diretor da agência James Lee Witt disse, diante do Congresso, em março de 2004: "Estou extremamente preocupado porque a capacidade de nossa nação de se preparar e para reagir a desastres sofreu uma erosão drástica. Um administrador estadual de emergências me disse: 'É como se uma faca tivesse sido cravada no coração da gestão de emergências'".

Notícia da Reuters Brasil

Será que os responsáveis pela protecção civil em Nova Orleans não
acreditaram nas previsões dos técnicos ou terão pensado que estes exageram nas possíveis consequências.

Publicado por rajodoas às setembro 2, 2005 11:48 PM

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