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fevereiro 23, 2005
Quatro casamentos e um funeral
O António afiançara à Maria que a vida seria um mar de rosas e cheia
de prosperidade. O casamento foi feliz e despreocupado. O António era um gastador compulsivo mas a Maria não queria saber nada dessas coisas
de dinheiro. "A família não são números", proclamava o António a quem lhe chamava a atenção para os excessos.
O que interessava era qualidade de vida, as grandes festas e as aparências.
Quando um dia, repentinamente, o António fugiu de casa deixando apenas
as prestações das dívidas por pagar, a Maria entrou em desespero. Estava de tanga. Atemorizada, casou com o Zé Manel, depois de um curto
namoro.
Afinal, o Zé Manel parecia ser bem mais ajuízado que o António e tal
vez trouxesse alguma ordem às finanças lá da casa.
Os rapazes sentiram logo algumas diferenças. As semanadas foram conge
ladas,o Zé Manel não lhes dava dinheiro para o autocarro e o discurso
mudara:
"Temos que poupar, não podemos gastar o que não temos", dizia o Zé
Manel.
Mas aquilo era só da boca para fora.Os costumes da família estavam bem
bem enraizados e, no essencial,tudo continuou como no tempo do António
Apesar das dívidas cada vez maiores, não se cortava na cozinha, nem
nas férias, nem nas contas da água, da luz ou do telefone. Nunca se dizia que não a um livro, a um disco ou a uma ida ao cinema. Não se mexia em direitos adquiridos.Por vezes o gerente da Caixa telefonava,
inquietado com o saldo do cartão de crédito. E de vez em quando ven
diam algumas jóias antigas para acalmar os credores.
Até que um dia o Zé Manel anunciou que se ia embora. Arranjara um em
prego no estrangeiro, muito bem pago. E disse à Maria: "Não te preo
cupes, eu vou-me embora mas arranjei-te marido novo. Casas-te com o Pedro. Ele cuida de ti."
A Maria assim fez mas o enlace durou pouco. O Pedro era um bocado es
touvado gostava dele nem um bocadinho e fez-lhe a vida negra. E um dia, o Pedro chegou a casa e descobriu que tinha a mala nas escadas.
Agora a Maria vai casar com o José. Foi o pai dela que arranjou o casa
mento. O José faz-lhe lembrar o António, de quem era muito amigo. O José propõe-se gerir as finanças familiares de outra maneira. Quando a Maria lhe pergunta como é que ele vai fazer ele explica: "É fácil, o objectivo é sermos felizes."
O José já prometeu que as semanadas das crianças vão ser aumentadas,
porque é uma vergonha que os nossos filhos tenham menos dinheiro que os filhos dos outros.Vai comprar um computador lá para casa e ligá-lo à Internet, em banda larga. Vai haver telemóveis para todos. "É um choque tecnológico",explica ele.E promete à Maria, que continua a ser
a única a trabalhar lá em casa, que não vai precisar de lhe dar nem mais um tostão. O José vai gerir a casa com o que tem. E daqui para a frente, quem paga o café e os cigarros é ele.Essa mania do consumidor
pagador já era.
Soa a banha da cobra mas a Maria quer marido e os bons pretendentes
não aparecem. A família da Maria gosta do José. Parece que vem aí um
tempo novo e os rapazes já estão fartos de más notícias. O José é recebido lá em casa de braços abertos. As más surpresas vão começar a chegar lá para o fim da Primavera. E um dia, alguém vai reparar que o título desta história é "Quatro Casamentos e Um Funeral".
Publicado por rajodoas às fevereiro 23, 2005 05:07 PM
Comentários
Muito imaginativo e bem traçado ao pormenor, para alem do estilo refinado e apropriado. Muito bem, desde que sejam eles a ir para o galheiro!
Publicado por: hammer às fevereiro 23, 2005 09:27 PM
Bem apanhada:).Isso do consultorio de vidente era dinheiro em caixa!
Publicado por: annie hall às fevereiro 23, 2005 10:42 PM
Simetricamente muito generoso.
Mas estou em crer que nada será como dantes. Para o bem ou para o mal…
Publicado por: jgonçalves às fevereiro 23, 2005 10:48 PM
Fica bem referir o autor da prosa :
http://jaquinzinhos.blogspot.com/2005/02/blogspot_14.html
Publicado por: Shyznogud às fevereiro 24, 2005 01:21 PM
Tem toda a razão "jaquinzinhos" só que recebi esse mail sem indicação do respectivo autor e disso não pude fazer referência. Mas fica expresso aqui e agora de que este post não é da minha autoria mas sim uma transcrição de um mail recebido.
Publicado por: congeminações às fevereiro 24, 2005 05:25 PM