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janeiro 28, 2004

Arca do Noé (Versão actual)

Um dia, o Senhor, chamou Noé da Silva e ordenou-lhe:
Dentro de seis meses, farei chover ininterruptamente durante 40 dias
e 40 noites, até que todo o Portugal seja coberto pelas águas. Os maus
serão destruídos, mas quero salvar os justos e um casal de cada espé-
cie animal. Vai e constrói uma arca de madeira. No tempo certo, os tro-
vões deram o aviso e os relâmpagos cruzaram o céu. Noé da Silva cho-
rava, ajoelhado no quintal de sua casa, quando ouviu a voz do Senhor
soar, furiosa, entre as nuvens:
Onde está a arca, Noé?"
Perdoe-me, Senhor" - suplicou o homem. Fiz o que pude, mas encontrei
dificuldades imensas. Primeiro tentei obter uma licença da Câmara Muni-
cipal, mas para isto, além das altas taxas para obter o alvará, pediram-
-me ainda uma contribuição para a campanha da reeleição dos presiden-
tes de camara. Como precisava de dinheiro, fui aos bancos e não conse-
gui empréstimos, mesmo aceitando aquelas taxas de juro. Afinal, nem
teriam mesmo como me cobrar depois do dilúvio.
Depois veio o Corpo de Bombeiros exigiu um sistema de prevenção de
incêndios e alguma ajuda para a compra de uns Helicópteros, mas con-
segui contornar subornando um funcionário. Começaram então os pro-
blemas com a extracção da madeiras nas área ardidas. Eu disse que
eram ordens "Suas" mas eles só queriam saber se eu tinha "projecto
de reflorestamento" e um tal "plano de manejo". Entretanto a Quercus
descobriu também uns casais de animais guardados no meu quintal.
Além da pesada multa, o fiscal falou em "prisão sem direito a fiança"
e acabei por ter que matar o fiscal, pois para este crime a lei é mais
branda. Quando resolvi começar a obra na praça, apareceu a fiscaliza-
ção que me multou porque eu não tinha um engenheiro naval respon-
pela construção. Depois, apareceu o representante do Sindicato exi-
gindo que eu contratasse os seus marceneiros que ficaram desempre-
gados por culpa das políticas deste Governo e com garantia de empre-
go por um ano. Vieram em seguida as Finanças, acusando-me de
"sinais exteriores de riqueza" e também me multaram. Finalmente,
quando a Secretaria do Meio Ambiente pediu o "Relatório de Impacte
Ambiental" sobre a zona a ser inundada, mostrei o mapa de Portugal.
Aí quiseram internar-me num hospital psiquiátrico!".
Noé da Silva terminou o relato a chorar mas notou que o céu clareava.
Senhor, então já não vais afundar Portugal?"
Não!" - respondeu a voz entre as nuvens - "Pelo que ouvi de ti, Noé,
cheguei tarde, já há muitos a tratar disso!".

Publicado por rajodoas às janeiro 28, 2004 07:31 PM

Comentários

Belíssima caricatura!
E, infelizmente, bastante próxima da realidade...

Publicado por: Luís Humberto Teixeira às janeiro 28, 2004 11:40 PM

Muito bom Humor Raul.

Publicado por: vmar às janeiro 29, 2004 12:17 AM

Não podia deixar de comentar este retrato perfeito sobre o nosso pequeno Portugal!
Está simplesmente genial...

Publicado por: Rafael Pereira às janeiro 29, 2004 05:19 PM