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dezembro 03, 2003

Os envergonhados do passado


Mas onde é que eles estão? Hão-de ser muitos. Últimamente têm
aparecido alguns a anunciarem que não nos devemos envergonhar
do nosso passado. Mas que passado? Aquele que nos foi imposto
pela ditadura? Posso até compreender essa afirmação da parte de
alguém que ainda a tenha vivido na sua tenra idade, mas aos ou-
tros, não entendo a não ser pelas suas convicções políticas. Eu não
tenho razões para me envergonhar do meu passado. Tinha então
16 anos, isto nos anos 60, porque nasci em 1944 em Angola na lo-
calidade de Camacupa, Província do Bié, quando me encontrava a
residir nessa altura na cidade das acácias, Benguela. As suas gen-
tes eram então tidas como as mais contestatárias daquela colónia,
porque muitos pensavam que não era possível continuarmos a ser
governados à distância e muito menos a partir do Terreiro do Paço.
Mas dizia. Estando a participar numa "rebita" baile que se realizava
nos bairros periféricos da cidade, no qual também se encontrava o
engº. Sócratas Dáskalos que leccionava no Liceu de Benguela, quan-
do alguém grita "fujam chegou a PIDE". Todos os que se encontra-
vam em condições de o poder fazer, conseguiram fugir, outros hou-
ve que não tiveram essa oportunidade e foram detidos entre os quais
o engenheiro. Entretanto soubemos que nessa mesmo noite e numa
rusga domiciliária, também os agentes daquela polícia tinham tentado
deter o engº. Farinha amigo do Socrates, mas não tinham conseguido
porque este havia fugido e mais tarde viemos a saber que se tinha
refugiado no Brasil. Foi a partir daqui e de algumas explicações que o
meu saudoso pai me deu que fiquei então a saber a razão da existên-
cia da odiada polícia. Mas embora jovem continuava a despertar em
mim o interesse pelo rumo que os benguelenses queriam dar à sua
terra. Estou-me a lembrar por exemplo, que uma das aspirações era
o da construção de um aeroporto, pois existia um na cidade o Lobito,
a uma distância de 30 quilometros e a aeronautica civil argumentava
que não se justificava e a população meteu mãos à obra e acabou por
ser construído o aeroporto DOKOTA por vontade e determinação dos
benguelenses. Também me lembro só porque havia constado que o
então Ministro do Ultramar, professor Adriano Moreira era um contes-
tatário das políticas de Salazar para o Ultramar. Só por isso. O profes-
sor teve uma recepção em massa de todos os benguelenses tão calo-
rosa, que inclusivé andou defronte ao Palácio do Governo de Distrito,
aos ombros de uma série de populares. Claro está que quando regres-
sou ao Continente foi passado pouco tempo destituído do lugar pelo
ditador.

Publicado por rajodoas às dezembro 3, 2003 07:12 PM

Comentários

Oh Raul esses são os saudosistas.
Nem preciso de dizer de quem......

Publicado por: vmar às dezembro 3, 2003 09:19 PM

Não é por nada, mas fico a congeminar sobre uma pessoa, nascida em 1944 e que, familiarmente, me vem falar de Camacupa (Vila General Machado), Bié, Benguela e Lobito. Isto diz-me alguma coisa porque também eu andei por aqueles lados e cá tenho quase todos ou muitos dos amigos da infância e da juventude.

Ah!, sem nada a ver com isto. De vez em quando sou frequentador do seu blog. A frequência varia em função da frequência com que edita.

Um abraço.

Publicado por: LFV às dezembro 3, 2003 09:24 PM

Caro LFV. De Camacupa não conheço rigorosamente
nada, pois fui só lá nascer. Mas estudei nos Maristas na cidade de Silva Porto fui hóspede da
viúva Adélia Teixeira Pinto, no ano de 1958.Vivi
no Lobito, junto ao cine-esplanada Flamingo, sendo um assíduo frequentador nos anos de 1962/63. Em relação a Benguela para melhor referência sou cunhado do Alvaro João o conhecido
"Toyota" filho do médico Sousa e Andrade e fui aluno do professor Barbosa um dos donos do colégio Académico. Se isto lhe diz alguma coisa se calhar até partilhamos daquelas traquinices que faziamos de moto no parque de estacionamento do cine-teatro Monumental em Benguela. Também frequento o seu blog onde costumo debitar os meus bitates. Um grande abraço.

Publicado por: congeminações às dezembro 3, 2003 10:47 PM

Já agora gostava de saber onde é que se baseou para referir os casos que refere relativos a acções danosas na Lusíada que estavam a ser investigadas...

Publicado por: Mike às dezembro 18, 2003 06:57 PM